O persistente desacato português às decisões europeias sobre o cânhamo industrial

Publicado 4 meses ago

em Novembro 28, 2025

Reading Time: 3 minutes

Num momento em que a União Europeia reforça o investimento na bioeconomia, nas cadeias de valor sustentáveis e na competitividade agrícola, Portugal insiste em recuar para um labirinto burocrático que a Europa já ultrapassou. O setor do cânhamo industrial, que no mercado interno europeu é reconhecido como cultura agrícola legítima, continua por cá a ser tratado como um artefacto suspeito. O problema já não é só atraso regulatório; é uma ruptura com o Direito da União Europeia e um atentado à segurança jurídica nacional.

A prova mais recente é o Ofício Circulado n.º 25091/2025, emitido pela Autoridade Tributária em 26 de novembro. O documento, baseado num parecer do INFARMED, declara que a comercialização de produtos contendo extratos da planta da cannabis, incluindo CBD, está proibida fora do âmbito medicinal. A AT chega mesmo a enquadrar óleos, extratos, líquidos para cigarros eletrónicos e produtos equiparados a tabaco como substâncias controladas, independentemente da origem, finalidade ou teor de THC. Este posicionamento, além de desfasado da ciência e da legislação europeia, representa uma inversão da lógica do mercado interno e ignora as obrigações de Portugal enquanto Estado-Membro.

Esta interpretação não é apenas conservadora: é tecnicamente insustentável e juridicamente nula perante o Direito europeu.

A Europa já decidiu — e Portugal recusa-se a aceitar

O Tribunal de Justiça da União Europeia, no Acórdão C-663/18 (Kanavape), estabeleceu dois princípios fundamentais:

1. Os Estados-Membros não podem proibir a comercialização de CBD legalmente produzido noutro Estado da União, mesmo quando extraído da planta inteira, incluindo flores e folhas.

2. O CBD não é considerado um narcótico segundo o estado atual da ciência, não produz efeitos psicotrópicos e não apresenta risco que justifique restrições deste tipo.

O TJUE acrescentou ainda que a livre circulação de bens — pedra angular da UE — impede que cada país crie barreiras comerciais baseadas em preconceitos ou interpretações nacionais arbitrárias.

Para agravar, o cânhamo industrial é reconhecido pela União como cultura agrícola legítima desde os anos 90. O Regulamento (UE) n.º 1307/2013 estabelece a sua elegibilidade para apoios da PAC, desde que o teor de THC seja igual ou inferior a 0,2% (ou 0,3% conforme a norma mais recente). As variedades certificadas são listadas no Catálogo Comum de Variedades Agrícolas da UE.

Portanto, enquanto a UE clarifica, Portugal obscurece. Enquanto a Europa define critérios técnicos, Portugal responde com pareceres vagos. E enquanto o Tribunal de Justiça reforça a livre circulação, Portugal inventa obstáculos administrativos que não existiam.

As lojas de cânhamo industrial: o retrato vivo da insegurança jurídica

Por todo o país, estabelecimentos que vendem produtos derivados de cânhamo industrial vivem num clima que oscilaria entre tragicômico e kafkiano, se as consequências não fossem tão sérias. Vêm-se confrontados com:

● fiscalizações sem critérios uniformes;
● apreensões de mercadoria legal no resto da UE;
● processos que ficam anos sem decisão;
● interpretações divergentes entre AT, PSP, GNR, ASAE e DGAV;
● notificações em que diferentes departamentos do Estado se contradizem entre si.

O contraste chega ao ridículo. Um frasco de óleo de cânhamo que é legal na Bélgica, certificado na Alemanha e vendido em supermercados em França, pode ser apreendido num balcão português como se fosse um carregamento de contrabando.

Esta distorção não protege ninguém — apenas destrói investimento, trava inovação e empurra pequenas empresas para a incerteza.

Portugal é europeu… mas só quando não incomoda

O mercado interno não é um buffet onde cada país escolhe o que aplica e o que ignora. O Direito da União prevalece sobre o direito nacional sempre que haja conflito. E o acórdão C-663/18 é claro. Portugal não tem margem interpretativa para proibir, restringir ou penalizar o comércio de CBD produzido segundo as normas europeias.

Persistir neste desfasamento é rejeitar o próprio espírito da União e criar um precedente perigoso: se Portugal pode ignorar o TJUE quando lhe convém, o que impede outros Estados-Membros de fazer o mesmo?

Conclusão: alinhar com a ciência, com o direito e com o futuro

O Governo português precisa de agir rapidamente:

• harmonizar procedimentos administrativos com o Direito da União e com o acórdão C-663/18; • rever a posição do INFARMED e da AT, eliminando interpretações que já não têm suporte jurídico;
• formar polícias, fiscais e reguladores para que não confundam cânhamo industrial com substância ilícita;
• restaurar a segurança jurídica que permita ao setor crescer sem medo.

O cânhamo industrial é legal. O CBD não é narcótico. A Europa já clarificou. Portugal pode continuar a ignorar isto — mas não sem custos económicos, jurídicos e reputacionais.

É tempo de abandonar o reflexo proibicionista e devolver racionalidade a um tema que, na verdade, nunca deveria ter saído do domínio técnico. O futuro europeu do setor já existe. Falta decidir se Portugal quer fazer parte dele.

Leonardo R. Sousa
Covilhã, 27 de Novembro de 2025

[Aviso: Por favor, tenha em atenção que este texto foi originalmente escrito em Português e é traduzido para inglês e outros idiomas através de um tradutor automático. Algumas palavras podem diferir do original e podem verificar-se gralhas ou erros noutras línguas.]

O que fazes com 3€ por mês? Torna-te um dos nossos Patronos! Se acreditas que o Jornalismo independente sobre canábis é necessário, subscreve um dos níveis da nossa conta no Patreon e terás acesso a brindes únicos e conteúdos exclusivos. Se formos muitos, com pouco fazemos a diferença!

Mais Recentes

Análise

Dezembro 4, 2025

A Península Ibérica enfrenta desafios estratégicos como principal polo industrial de canábis da Europa

Ciência, Cultivo, Entrevistas, Internacional, Notícias, Politica, Sociedade

Dezembro 3, 2025

Beatriz Emygdio: “O Brasil tem condições de ser protagonista global no sector da canábis”

Ciência, Internacional, Notícias, Saúde

Dezembro 2, 2025

Canabinóides oferecem nova esperança no combate ao cancro do colo do útero

PUBLICIDADE

Dezembro 2, 2025

Vaporizadores medicinais com certificação da UE chegam ao mercado: estabelecendo um novo padrão regulamentar

Ciência, Internacional, Investigação, Notícias, Saúde, Sociedade

Novembro 29, 2025

EUA: Ensaio clínico recria experiência da vida real e reitera que o uso de canábis reduz o consumo de álcool

Opinião

Novembro 28, 2025

O persistente desacato português às decisões europeias sobre o cânhamo industrial

Nacional, Notícias

Novembro 27, 2025

Portugal: Autoridade Tributária e Aduaneira proíbe comercialização de CBD e THC em produtos de tabaco

Ciência, Internacional, Investigação, Notícias

Novembro 26, 2025

Teste de reflectância hiperespectral consegue prever o teor de canabinóides a partir das folhas da canábis

Relacionadas

Análise

Dezembro 4, 2025

A Península Ibérica enfrenta desafios estratégicos como principal polo industrial de canábis da Europa

Ciência, Cultivo, Entrevistas, Internacional, Notícias, Politica, Sociedade

Dezembro 3, 2025

Beatriz Emygdio: “O Brasil tem condições de ser protagonista global no sector da canábis”

Ciência, Internacional, Notícias, Saúde

Dezembro 2, 2025

Canabinóides oferecem nova esperança no combate ao cancro do colo do útero

PUBLICIDADE

Dezembro 2, 2025

Vaporizadores medicinais com certificação da UE chegam ao mercado: estabelecendo um novo padrão regulamentar

Ciência, Internacional, Investigação, Notícias, Saúde, Sociedade

Novembro 29, 2025

EUA: Ensaio clínico recria experiência da vida real e reitera que o uso de canábis reduz o consumo de álcool

Nacional, Notícias

Novembro 27, 2025

Portugal: Autoridade Tributária e Aduaneira proíbe comercialização de CBD e THC em produtos de tabaco