A industria do cânhamo em Portugal está a crescer. Os projectos em andamento, a crescente área cultivada e os anúncios de novas instalações para a transformação são sinais de que há uma indústria a amadurecer. Porém, esse crescimento traz também novos desafios, nomeadamente na capacidade de Portugal competir e se afirmar em relação à cultura do cânhamo.
Conversámos brevemente com Luís Albuquerque, licenciado em Engenharia Agrícola e responsável de vendas da Agrovete, no World Hemp Forum, em Novembro, em França, que nos facultou a sua breve leitura desta indústria e as perspectivas para Portugal.

A Agrovete está no sector da canábis e agora o cânhamo também é um sector de interesse para a vossa empresa, não é?
A Agrovete é uma empresa de sementes para a agricultura. De modo geral, está inserida num grupo farmacêutico, liderado pelo Iberfar. Temos um projecto de canábis medicinal, que é produzida numa herdade nossa, e depois transformada nos laboratórios do Iberfar e comercializada pela Ferraz Lynce. Paralelamente a este interesse pela canábis medicinal, logicamente, como somos agricultores e tratamos de sementes, começaram a aparecer as necessidades da cultura do cânhamo e nós fomos acompanhando. Depois chegaram até nós as pessoas da Cânhamor e um projecto que temos com a indústria têxtil, do CITEVE, que faz análise da qualidade das fibras. Nós tratamos da parte agrícola desse projecto. Desenvolvemos os ensaios com a Universidade de Beja e também em Badajoz, por questões de legislação, com o CTAEX, que é da Junta da Extremadura. Conhecemos as pessoas muito bem e temos desenvolvido vários projectos lá. Em Espanha, convidam-nos frequentemente e estivemos presentes no congresso da CTAEX em Badajoz. Ali ficou claro que quem partiu depois de nós já vai muito à frente e essa é a nossa triste realidade em Portugal. Quando soubemos também deste congresso aqui em França, por ser o primeiro, quisemos estar presentes, e foi muito bom. Encontrámos aqui parceiros e fornecedores de sementes, e esperamos desenvolver essas parcerias no futuro.
O cânhamo tem mostrado muito potencial, tanto na parte da construção como na parte da fibra e dos têxteis. Há aqui um mercado que se mostra promissor, mesmo em Portugal, no futuro?Em Portugal temos metade dessa procura e os números que vimos aqui [em França] foram impressionantes. Quer dizer, dobraram em dois anos a produção e esperam dobrar agora outra vez, em mais meia dúzia de anos.
Tive uma reunião com o maior fornecedor de sementes desta cultura e temos esperanças de conseguir multiplicar e produzir sementes de cânhamo em Portugal para os agricultores portugueses e espanhóis. Isto porque haverá este ano, e já no ano passado houve, falta de semente na Europa. Vai haver falta este ano outra vez, porque o fornecedor não está a ter capacidade de resposta para o aumento da procura. Também tem sido notório que já era uma cultura que esteve mais ou menos adormecida durante algum tempo e, portanto, não teve muita investigação. Claro que a procura e a investigação é que fazem desenvolver os projectos e penso que dentro de meia dúzia de anos isto estará numa velocidade cruzeiro.
Com Portugal num papel preponderante?
Julgo que sim, acho que temos lugar.