Este artigo inicia uma série sobre temas necessários para os que acreditam que esta planta merece ser reverenciada e elevada acima de (apenas) ser comercializada como flor oxidada e/ou óleo bioremediado para ser vendido numa qualquer bomba de gasolina ou máquina de venda automática, num futuro próximo.

Terroir. A palavra que hoje conhecemos do francês e que tantas ocasiões gera confusão pela multiplicidade de factores que engloba. Afinal o que é realmente Terroir? Numa qualquer pesquisa pela internet facilmente encontramos “O termo deriva do latim terratorium (…) Em francês, terroir refere-se a uma extensão limitada de terra considerada do ponto de vista de sua aptidão à agricultura (…) dotado de certa homogeneidade física, seja decorrente de atributos naturais (geológicos, topográficos, edáficos, climáticos, microclimáticos, etc)”. Esclarecidos? Claro que não! Sem contexto, a palavra de pouco serve.
Voltamos atrás no tempo, até ao século XIX quando os europeus e mais especificamente os franceses importaram castas de vinho oriundas da Costa Este dos EUA e Canadá, tentando criar novas variedades para produzir vinho. Nas estacas importadas contudo vinha entre outros, Daktulosphaira vitifoliae um parente dos afídeos mais conhecido por Phylloxera (o nome da doença causada pela mesma praga). A doença causada pela praga importada das américas rapidamente se espalha por todos os locais onde existem “vinhas velhas” (oriundas da europa) inclusive noutros continentes.

Do mesmo continente que veio a praga que quase dizima a indústria vinhateira à época, encontram a solução de utilizar uma casta, “Norton” descendente de videiras que cresciam selvagens no estado da Virginia (conhecido pelos seus extremos climatológicos e desafiante clima para produzir vinho), e mais concretamente como porta-enxertos para as variedades que os europeus tanto apreciavam. Atualmente a maioria das vinhas são enxertadas em porta-enxertos de maior resistência. E o que tem isto a ver com terroir? Sentindo uma perda de identidade pelo sucedido os vitivinicultores franceses inciam a revolução de legado que inspira a proteção de vários produtos e metedologias artesanais e regionais pelo mundo.

Durante os séculos, e até milénios anteriores já se observavam distinções por região (caso dos gregos e das suas ânforas marcadas por região p/ex.), mas nunca tinha sida estabelecido com rigor e exatidão as influências à minúcia que certos fatores tinham nas qualidades finais do vinho.
Pausa. Com paralelismos evidentes ao panorama contemporâneo da canábis, é difícil não olhar para produtos naturais como o tabaco para charuto, e o vinho que teriam sido tratados com outra qualquer comodidade numa corrida ao fundo, não houvesse a paixão e desejo de criar um legado duradouro para que regiões inteiras pudessem não só manter a sua cultura, como prosperar a partir dela.

Play. Podemos então nomear os fatores que mais influenciam o Terroir:
- Clima/Microclima – Temperatura, Precipitação,
- Composição do Solo/ Geologia dos Solos
- Topografia/Geografia
- Microbiologia do Solo
- (Bónus) O Elemento Humano e a Intenção
1 – Clima/Microclima: Padrões climatológicos sucedem-se e a influência da latitude e geografia é evidente a nível regional e local na influência das horas de insolação, horas diárias de luz, ângulo do sol, pluviosidade, temperaturas ao longo da época, etc. afetam na totalidade as reações fenotípicas de uma planta.
2 – Composição/Geologia dos Solos: As variações na mineralogia, conteúdos de areia, ou barro, por exemplo, quantidade e tipo de matéria orgânica, etc influenciam o desenvolvimento de uma planta, bem como o a produção dos seus frutos e compostos presentes neles.
3 – Topografia/Geografia: Factores como topografia e geografia ajudam a definir climas e microclima, mas também níveis de UV, níveis de CO2, humidade, etc.
4 – Microbiologia do solo: Os tipo de fauna e flora presente em conjunto com outros fatores modelam a microbiologia dos solos e cursos de água que correm neles, estando a produção de metabólitos secundários intimamente ligada com a microvida, é possível concluir que a microvida presente, ou falta dela, pode alterar por completo o perfil e expressão final de uma planta, a par com a produção de compostos pela mesma.
5 – Elemento Humano: Apesar de controverso merece menção. As gentes da região e especialmente quem produz produtos de qualidade artesanal influenciam a experiência em produtos como o vinho, a cerveja e o tabaco, sendo na canábis essa componente ainda mais óbvia derivado dos seus efeitos subjetivos.
A denominação de origem controlada necessita de décadas de tradição e registos de metodologia, registos esses que foram quase impossíveis de manter visto que os operadores continuam a correr riscos para fazer acontecer aquilo que ninguém sabe de onde vem, mas que aparece nas ruas, devido ao cinzento legal que vivemos em Portugal.
Simultaneamente o mercado tradicional, para alimentar modas e tendências, teima em renomear clones e variedades clássicas com o nome mais sonante da época vigente, gerado ainda mais confusão sobre o que andamos todos a consumir.
Nos próximos artigos conto abrir mais o leque em cada um destes fatores não só para explicar, mas para dar início a um diálogo público que considero importante, tanto da parte dos operadores, como consumidores.
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A série “Legado Verde” é uma rubrica de opinião que pretende iniciar uma discussão franca e aberta a todos e é redigido pela mão de um colaborador que escreve sob o pseudónimo Yonniappleseed. O objectivo? Elevar a planta ao mais alto nível através da criação de novas técnicas/manutenção de tradição. A série “Legado Verde” promete aprofundar o leitor em vários temas técnicos de forma acessível e trazer ao público conhecimento e perspectivas poderosas – que não encontrará nos guias de cultivo comuns.