Juicy Fields desmorona-se e lesa milhares de investidores

Publicado 4 anos ago

em Julho 17, 2022

Reading Time: 5 minutes

A ultima semana foi intensa para quem acompanha a Juicy Fields, empresa que dizia cultivar canábis num modelo de crowd-growing. A tomada de posse de um novo CEO, uma aquisição em África, uma alegada greve e a plataforma inoperacional foram os ingredientes que catalisaram a agitação e frenesim que dominou por completo os grupos de Telegram da Juicy Fields. Enquanto os investidores procuram estratégias para mitigar as perdas da companhia, que já tinha sido avisada pelo regulador financeiro alemão, ecoa um silêncio ensurdecedor. Os indícios apontam, de forma contundente, para uma fraude milionária, que lesa milhares de investidores em todo o mundo.

Actualização (18 de Julho de 2022, 11h00m): Através dos meios de comunicação digital, nomeadamente vários grupos de telegram, acumulam-se investidores lesados que unem esforços no sentido de investigar e de procurar disponibilizar o máximo de informação com as autoridades. Em Espanha já foi constituída uma Associação de Afectados, e em Portugal a comunidade criou uma pasta na Drive com documentos tipo para proceder às denúncias.  

A promessa de lucros e retornos atractivos e o sector da canábis em franca expansão foram a amálgama de condições que popularizaram a Juicy Fields enquanto plataforma de investimento. Os utilizadores investiam num número de plantas à sua escolha, recebendo depois os lucros da venda da produção obtida em função da quantidade de gramas produzida por cada uma das plantas. A Juicy Fields mantinha uma agenda de marketing voraz e agressivo, com investimentos avultados em comunicação e na participação de inúmeros eventos relacionados com a canábis como patrocinador. Contudo, apresentava algumas situações enigmáticas, que vinham a ser reportadas como sinais (red flags) de que toda a estrutura e actividade da empresa poderia ser uma fraude.

Na última semana sucedeu-se uma série de eventos que começaram a despoletar várias preocupações, já que eram situações consideradas anormais e que nunca teriam acontecido no passado. Entre estas, verificaram-se anomalias nas operações de depósito e retirada, mas principalmente, foi comunicada por e-mail uma alegada greve do grupo de suporte e comunicação. Em simultâneo, decorria a adaptação do novo CEO, Willem van der Merwe, que teria iniciado funções em Junho, em substituição do ex-CEO, Alan Glanse, e que havia prometido aos investidores um vídeo com declarações suas, garantindo que era apenas uma situação pontual e que estaria prontamente resolvida.

Foi o início do fim. Nos últimos dias, assistiu-se a vários esclarecimentos e desmentidos por parte de alguns alegados parceiros da empresa, entre eles a empresa portuguesa Sabores Púrpura, um escritório de advogados da Venezuela e uma farmacêutica alemã, segundo reportou o El Diario. Ao início, os rumores foram de que a empresa tinha sido alvo de um ataque informático, que teria afectado os grupos de Telegram onde a empresa estabelecia grande parte da comunicação com os utilizadores. No entanto, surgiram mais indícios de que estavam a decorrer alterações no website e todos os utilizadores receberam um e-mail a anunciar uma greve do staff. Por fim, o Telegram entrou em ebulição quando a notícia de que o CEO Willem van der Merwe estaria de saída da companhia.

Num comunicado, datado de 15 de Julho, a partir de Tavira, no Algarve (sul de Portugal) a Sabores Púrpura afirmou-se “totalmente alheia” à actividade desenvolvida pela Juicy Fields. “Queremos confirmar que a Sabores Púrpura teve um vínculo meramente comercial com a Juicy Fields, não tendo tido qualquer suspeita em relação às atividades ilícitas e fraudulentas de que a Juicy Field está a ser agora acusada”.

“A Sabores Púrpura é totalmente alheia à atividade desenvolvida pela Juicy Fields, sendo totalmente especulativas todas as alegações que envolvam o nome da empresa”

A empresa portuguesa garantiu ainda que “na Sabores Púrpura, o resultado dos últimos 10 anos de atividade permitiu produzir medicamentos à base de canábis, suscetíveis de poder aliviar as dores e melhorar a qualidade de vida de mais de 1.800 milhões a nível mundial”.

Sinais de alerta
No sábado, um alegado e-mail da equipa de funcionários da Juicy Fields alegava que a empresa estaria inoperacional desde o início da semana e que não existiam quaisquer instruções ou comunicações dos proprietários. O e-mail revela que alguns funcionários têm salários em atraso, tal como confirmado por Zvezda Lauric, que era a porta-voz e cara da Juicy Fields na comunicação, redes sociais e relações públicas nos eventos. A situação é de tal forma complexa que na noite de sábado foi colocado online um vídeo da alegada CFO da empresa, Birgit-Elisabeth Neumann, onde são denunciados abusos dos alegados proprietários da empresa, nomeadamente falsificação de documentos.

A Juicy Holdings B.V. já tinha sido avisada pelo regulador financeiro alemão, BaFin, por não ter publicado um prospecto de venda aprovado pela BaFin para a oferta pública dos investimentos que a empresa alegadamente oferecia, bem como pela CNVM (homóloga da Comissão de Mercado de Valores Mobiliários em Espanha). A empresa disponibilizava quatro opções com diferentes valores de investimento – a Juicy Flash, Juicy Mist, Juicy Kush e Juicy Haze -, sendo que o investimento seria realizado através de transferência bancária ou da compra em criptomoeda. Em comunicado, a empresa manifestou intenções de apresentar um prospecto financeiro na Dinamarca, de forma a ultrapassar estas questões, o que não aconteceu.

A Juicy Fields operava, alegadamente, através de uma empresa denominada de Juicy Holdings B.V., registada na Holanda, detendo o registo da marca “JuicyFields” através do representante Braschi AG, uma empresa sediada em Zurique, na Suíça. Apesar da Juicy Fields ter afirmado ser administrada por uma empresa holandesa chamada Juicy Holdings BV, a verdade é que existe a Juicy Fields AG como empresa registada na Suíça.

Onde estão os milhões?

A queda de um esquema de pirâmide ou de um esquema Ponzi é um eufemismo e uma simplificação exagerada daquilo que são as circunstâncias actuais, onde vários utilizadores se organizam em grupos de afectados e lesados da Juicy Fields no Telegram onde recolhem informações e coordenam as denúncias na polícia, contactando com os vários funcionários que se mostram disponíveis para auxiliar nesta situação. As informações surgem a conta gotas, quer por parte de vários trabalhadores e ex-trabalhadores da Juicy Fields, quer por parte de utilizadores que dirigem esforços para tentar recolher o máximo de informações relativamente ao paradeiro dos valores investidos.

Este esforço conjunto levou ao surgimento de vários endereços de carteiras, alegadamente pertencentes à Juicy Fields, que foram identificados na blockchain pelos investidores, que se organizaram colectivamente para tentar travar quaisquer movimentos através do bloqueio daqueles activos. Semelhante atitude foi tida com as duas instituições bancárias que recebiam os pagamentos dos investidores através de transferência bancária. É certo que os investidores estão a tentar dificultar ao máximo que se realize uma fuga de capital, cooperando com as entidades em relação a esta questão.

Apesar das informações serem escassas, o CannaReporter irá continuar a acompanhar esta matéria com os desenvolvimento que entretanto surgirem.

Actualização (18 de Julho de 2022, 11h00m) Sou lesado. E agora?

Nos grupos de Telegram são disponibilizadas informações sobre como proceder às queixas nas autoridades

A dimensão deste caso em particular tem vindo a crescer e a aumentar no número de lesados que procuram informações relativamente a como proceder a sua denúncia. Os vários utilizadores têm se vindo a agrupar em canais de telegram nacionais

onde são seguidas diferentes estratégias, como é o exemplo espanhol, onde já está constituída uma associação de forma a levarem o caso à justiça de forma colectiva. 

Por outro lado, em Portugal os utilizadores reportam estar a fazer as suas queixas directamente nas entidades competentes numa esperança de que a dimensão e a quantidade de queixas que o Ministério Público porventura receba, possa acelerar, de facto, o processo. Os utilizadores criaram uma pasta do Google Drive onde estão partilhados documentos para auxiliar os lesados a proceder à sua queixa.

[Aviso: Por favor, tenha em atenção que este texto foi originalmente escrito em Português e é traduzido para inglês e outros idiomas através de um tradutor automático. Algumas palavras podem diferir do original e podem verificar-se gralhas ou erros noutras línguas.]

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Sou um dos directores do CannaReporter, que fundei em conjunto com a Laura Ramos. Sou natural da inigualável Ilha da Madeira, onde resido actualmente. Enquanto estive em Lisboa na FCUL a estudar Engenharia Física, envolvi-me no panorama nacional do cânhamo e canábis tendo participado em várias associações, algumas das quais, ainda integro. Acompanho a industria mundial e sobretudo os avanços legislativos relativos às diversas utilizações da canábis. Posso ser contactado pelo email joao.costa@cannareporter.cannabud.io
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